RUÍNAS ALADAS

Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.



Sábado, Outubro 30, 2004

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O PALHAÇO

Às vezes as coisas se misturam, tornam-se indissociáveis.

O palhaço cinza surge no palco. Um grande corpo único, um coração sem rumo e um olhar vago. Senta-se sobre uma esfera de plástico negro transparente. Amanhã... poucos minutos apenas de diverso impacto. Olhos parados, brilhando sem sentir o escuro que, apenas, há. Cometas de4spencando do céu com estrondo, destruindo o tablado de madeira. Um palhaço triste transplantado. Milhares de mariposas de borralho com com seus olhos azuis e asas de poeira e tempo passado. Um caminhão de corações verdes esvaindo em sangue frio, invisível. O palhaço em sua dor, onde as palavras calam e se afogam no lastro e nos refletores queimados. Sorriem flores de pano amarelo brilhante e áspero. O palhaço espera, enquanto mira a radiografia da caixa torácica com uma lanterna. Um agora sem minutos possíveis e um coração enorme e enjaulado. Volta-se às cinzas mortas e enterradas no compasso surdo de uma fanfarra. A maquiagem desbota e o foco de única luz branca cai sobre o violoncelo que chora e verte água corrente. O palhaço cinza se protege com um guarda-chuva cheio de furos. A peruca desfaz os cachos vermelhos e o cenário é o pôr do sol noturno. O violino acompanha o solo e um murmúrio é ouvido. Lentamente sai o ator da cena e, nos bastidores, findo o espetáculo cômico do marionete, ouve-se um tiro abafado por uma gargalhada morta. Apenas ossos brilham no espelho.

(L.F. Calaça | 22/10/2004)

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Domingo, Outubro 10, 2004

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Sábado, Outubro 09, 2004

HISTÓRIAS FELIZES

Os ovos brancos do avestruz
se desequilibram das pontas das lanças
e caem despedaçados no chão.

O sonho é uma história sem palavras.
Histórias sem palavras não são histórias.

O grito ecoa das cascas imóveis.


Histórias felizes não existem. Imagens distorcidas na noite, entre postes e ruas lavadas de cólera. Mesmo a Lua cheia e gigante, suspensa no céu como dirigível, fecha seus olhos que não aguentam. As telas brilhantes mostram carnificinas diariamente, e as crianças choram de dor no parto sem luvas. Eclipse e paranóia, onde o homem se transmuta em coisa enorme e pegajosa, as mãos suam secreções estéreis. Olhos fitando a solidão dos dias. Corredores infinitos e ensangüentados, os batimentos cardíacos paralisados e as pernas latejando violadas. A dor atravessando as esquinas sonâmbulas. Milhares dormindo sem culpa e outros tantos rastejando nos espelhos. Fotografias desfocadas e cometas sem estrelas cadentes. Um assobio dilui as dunas azuladas no quarto que pisca e some. O clown triste dedilha uma melodia triste no violão sem cordas. Pernas soltas no balanço de cordas em chamas. No varal, tecido entre as janelas dos arranha-céus, fetos abortados deliram a maternidade anônima e placentária. Latões de zinco recolhem a chuva de plasma. Todos olham as pontas do dedo indicador, apontando o meio dos olhos e explodindo numa lágrima vítrea. Os paramédicos socorrem as vítimas incineradas pelo canto das corujas míopes. Doem as partes presas no tom de inércia pendular. À meia noite, trabalhadores noturnos destroem vidraças com britadeiras blindadas. A Lua gigante solta louco grito histérico. Mulheres rubras se transformam nas estrelas cadentes irreversíveis e pulam do terraço dos prédios de cem andares até o chão de asfalto, virando ondas do mar. Uma palhacinha sem olhos e face bamba na fita azul turquesa, caindo e entrelaçando as perninhas finas nos nós cegos. Todos olham as pontas dos dedos fálicos que ejaculam o frígido orgasmo do tédio. A náusea sobrevive à ânsia, que ascende à garganta. Histórias felizes não existem. Histórias tristes são repletas de sorrisos amarelos e sem fim.

(L. F. Calaça | 28/09/2004)

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